VOCÊ NÃO SOUBE ME AMAR

Você não sobe me amar.II

— Quioré?

— Como?

— Quioréagór?

— Não entendi

 

Fiquei falando sozinho na praça da Catedral em Piracicaba.

Como bom sagitariano, gosto de mudanças em datas exatas.

No primeiro dia de 1982 fui para Piracicaba, fugindo de outra vida. Queria um lugar tranquilo, em que não conhecesse ninguém. Fazer uma nova vida nova.

A transferência para a faculdade de administração foi fácil. Ela era no centro, na Rua Boa Morte. Arranjei um pensionato também no centro, na Rua Prudente de Morais, três quarteirão abaixo da igreja do São Benedito.

Fui procurar um emprego. Tarde e noite. Consegui em uma livraria na Galeria perto da Catedral, na Rua Moraes Barros. Gosto de ler!

Vida perfeita.

Perto de tudo. Escola, trabalho e casa.

Na redenção, resolvi comungar todos os dias antes da aula.

Duro mesmo era os finais de semana.

Topava toda horas extras possíveis.

Sábado trabalhava até o meio dia. Depois almoçava no Mercadão. Caminhava pela Governador, rua de comercio. Ficava vendo as pessoas passarem, comprarem e sendo felizes. Via os filmes em cartaz no Broadway e no Politiama. Ia estudar ou dormir. Na noite, missa na catedral. Passeio em frente do clube Cristovão Colombo. Um lanche e cama.

Domingo de manhã. Missa das dez. Passeio. Almoço. Passeio e futebol na escola de Agronomia. Noite uma volta e retornar para o pensionato antes do Fantástico.

A vida melhorou quando saindo da Catedral, em uma manhã de abril, conheci a Júnia.

Melhor: ela me reconheceu. Estávamos na mesma classe.

Loira natural. Tipo mignon, com pernas grossas e bunda grande. Pele bronzeada e muito simpática. Fala mais do que o homem da cobra.

Foram cinco quarteirões de conversas e perguntas. Ficamos amigos.

Tão amigos que todo dia, depois de comungar, esperava para ir com ela.

Na volta, ela me acompanhava até a livraria. Beijos de companheiros.

Em um final de semana, sou convidado para um almoço familiar.

Moram perto de mim: na Tiradentes, 690, entre a Treze de maio e a Prudente de Morais

— Depois você pode me ajudar em Estatística, tá?

Comida mineira. Farta.

Conheci na mesa o pai, João Adolfo, advogado e assessor de um vereador local. A mãe, Fernanda Maria, do lar. E os irmãos mais novos: Rui e Cintia.

Todos me receberam bem.

Comi demais.

Falaram demais.

Fartei com o pudim de leite e apaixonei pelo pai dela. Não era a primeira vez. Já sabia como era dentro de mim: Paixão forte

Estudamos, porém eu totalmente encantado pelo João Adolfo.

Era um Nuno Leal Maia mais alto e bronzeado.

Voz potente. Olhar firme. Pés grandes. Pescoço peludo. Perna grossa. Contive para não me rasgar ali.

Naquela noite me masturbei muito pensando no meu João Adolfo!!

Minha rotina transformou.

Acordar cedo. Pensar no afeto.

Café pura com aflição em não encontra-lo.

Sair de casa. Passar em frente a casa dele. Agonia. Será que acordou pensando em mim?.

Esperar, como não quer nada a Junia na esquina. Apego. Uma pouco do João Adolfo podia ver.

Aulas diversas. Ardor. Pensava nele em todos dos virares de página.

Caminho até a livraria. Arrebatamento. Pai e filha se encontravam na Catedral.

— Quer vir jogar no clube, na sexta?

Irei sim, meu amor.

Sexta à noite.

Quadra do Regatas. Futebol de salão.

Além do João Adolfo não conheço ninguém.

— Tá fica no meu time, mas não sei se o rapazote joga mesmo? — disse o João Adolfo com um sorriso que me iluminou.

Joguei.

Joguei bem.

Não entrei duro em ninguém, peguei as bolas com delicadeza e firmeza. Distribui como pude. Fiz um gol de carrapeta que comemorei com o João Adolfo.

Vestiário. Banho geral.

Conversas e melhores momentos.

Arriscava um olho em João Adolfo. Arrebatado pelo meu amor.

— Menino, que tal amanhã vir em casa para um banho de piscina?

— Que hora? — perguntei olhando por onde a toalha enxugava.

— Lá pelas 10, que tal?

Ali estarei, minha vida. Faltarei no serviço.

As nove e meia estava na esquina.

As nove e quarenta e cinco já tinha ido até o mercado e voltado.

Nove e cinqüenta e dois estava apertando a companhia.

Dez e cinco ele atendeu.

— Os meninos saíram com a mãe! Júnia foi para Americana.

Piscina suja. Limpei superando a maravilhamento de cada olhar.

Ele, lindo, com um maio branco largo, mergulha.

Fui atrás para esconder a minha excitação.

— Num sei nadar.

— Ensino.

Quase aprendi a nadar. Mas não tanto pois sabendo não sentia perto.

Acho que fui eu: Beijamos. Longamente. Quente calor.

Depois de longos amassos e pegação, ele entrou.

Passou horas e nada.

Enxuguei-me.

Vesti, sai e joguei a chave pela janela.

Foi a missa das seis. Não comunguei.

Domingo foi passear pela Vila Rezende. Mirante e andando quase cheguei em Saltinho.

Mais de uma semana desolado.

Querendo morrer.

Esfrangalhado por dentro. Outra vez …

Parar de sentir.

Bebendo na Rua do Porto. Branca, envelhecida, tatuzinho, amarela, cavalinho, com peito de cobra, com pé de galinha, com olho de escorpião, armazenada, destratada, desidratada e com peido de veia.

… e ele não veio me buscar.

Saída do trabalho. Uma quinta. Um suco e um pastel.

João Adolfo me chama.

Está em uma mesa na calçada com amigos.

Convida para beber.

Bebemos. Falam. Desejo.Despedem e ficamos somente eu e ele.

Voltamos juntos.

Quietos.

— Que foi, menino?

— Nada

— Que foi, conta?

— Nada.

— Gostei daquele beijo — perdi o fôlego — Amanhã tenho que ir para Charqueada, vai comigo?

— Claro.

— Te pego às 7hs, certo.

Estarei lá, meu soberano.

Nem me masturbei.

Sete horas ele me pegou. Leve beijo…

Cinqüenta minutos, estávamos lá.

Ele me deixa esperando no carro.

Fica dentro da câmara municipal por hora e meia hora.

Sai.

— Vamos voltar?

— Você quer?

— Não.

— Então Vamos.

Uma hora depois estávamos em Limeira.

Um hotel ao lado da rodoviária.

Ali nos beijamos.

Ali nos tocamos.

Ali eu o tive.

Muitas vezes.

Até doer.

Até arder.

Até o fascínio virar amor.

Ali ele me teve

Muitas vezes.

Até formigar.

Até cintilar.

Até o fascínio virar adoração.

Noite, ele me deixou em casa. Muito beijos!!

Final do semestre quase tomei pau por falta. Tive que fazer diversos trabalhos.

Transformamo-nos em amantes.

Felizes.

Intensos

Freqüentes.

Constantes

Perdi o emprego.

Ele me dava dinheiro para pagar a pensão.

Cuidou de mim.

Veio julho.

Eles ficaram um mês no Guarujá. A família toda.

Todos sem mim

Passei mal.

Arranjei um outro emprego em um bar na Rua do Porto. Dava para pagar a pensão. De meu amor não dependia mais.

Voltaram.

Voltei a cercar.

Só deu em meados de setembro para encontrar com João Adolfo sozinho.

— Casa comigo?

— Está tonto, bebeu?!?

— Vamos fugir!!

— Nunca!!

— Mas eu te amo!!!

— Mas eu não. — segurei o choro e fechei a calça — Foi só uma aventurinha. Somos adultos ninguém se machuca, né?

— Tá bom.

— Vem almoçar em casa domingo?

Vou sim, meu amor.

Sexta, encontrei a Dona Fernanda Maria na feira.

Ajudei com os legumes e com as bananas.

Na barraca de pastel tomando um caldo de cana

— E aí? Está namorando?

— Não mais, ele me deixou …

— Ele?!?! Como ele? Você é …

—Desculpe o desabafo, mas fui deixado. Eu me envolvi e ele me iludiu. Prometeu e nada cumpriu …

— Foi?

— Foi sim …

— Quem é ele? Pode me dizer?

— Seu marido.

— O que?!?! Você e meu marido tiveram caso?

— Sério. De muito amor e de pele …

— Você aconteceu …

— Ele me seduziu …

— Como?

— Ele não gostava de ser o machão da relação. Queria minha fêmea, fugir, mas eu não quis!

Segunda sai no primeiro ônibus logo depois do enterro do João Adolfo, assassinado pela Fernanda Maria.

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