O HOMEM QUE DEVE MORRER

  Dingue-Lingue quer falar comigo. Grita. A alguazarra da crianças não me deixa ouvir direito. Fala mais alto! O berreiro é música! Dingue vem e tropeça em um moleque, faz um carinho em uma menina e beija outro. Adoro uma folia! Olhe que tudo começou com uma pratada na cabeça e ficar amarrado no pé…

OS AVÔS DE VITÓRIA

Entro no carro. Ele sorri. Pede desculpas por estar atrasado. Trânsito!! Está feliz? Claro!!! A minha primeira neta! Nossa primeira neta, ele me corrige. Reconta que desde que a esposa morreu, há quatro anos, submergiu no trabalho. Somente levantou a cabeça quando soube que a única filha, minha nora, ficou grávida, uma gravidez de risco.…

A BAILARINA E O SOLDADO

  Chovia e o barco de papel descia o rio a toda velocidade. “Não vai durar muito tempo” pensou o Soldado sem um braço. Mas mesmo assim tentava manter o barco firme, no rumo. Olhou para trás e viu um enorme tronco de madeira vindo em sua direção. Inclinou o barco um pouco e o…

ULISSES

Desenho a giz de cera de Luiz Carlos de Andrade Lima O generoso padre não tinha mais olhos para o Ulisses. Foi dolorido perceber. Ficou desolado quando não mais foi convidado para as pescarias. Não mais as aulas de liturgias as quartas à tarde. Não mais o acampamento na casa paroquial nas vésperas de feriados.…

Quase uma ficção

No ano de 1993, depois de dez anos, meu pai reapareceu em uma quinta. Quase três da tarde. Ele tinha sumido em uma terça de 1983 pela hora do almoço. Fingiu que não me reconhecia. Quem é você? Minha mãe, um pouco. Sua expressão não me é estranha? Minha irmã, com clareza. Minha mais querida…

Os Embalos de Sábado à Noite

  — Dança?!? — Nunca! — Música?!? — Nem pensar! — Teatro?!? — Está ficando besta? Ou é besta mesmo?!? — Box?!? — Só se for de banheiro, seu animal de rabo! Boxe e começa amanhã. Treinos e treinos com o primo do meu pai. Lutador velho que quase ganhou do cara que perdeu por…