CIDÃO E QUITÉRIA

Cidão

Quitéria fez a vida na esquina. Chegou ali grávida da primeira filha.
Prenha de um tio que jurou que ela foi a tentação.
Vendeu amendoim para os rapazes da construção.
Carvão, grelha, espeto de bambu e carne de terceira.

Vendendo, comprou o primeiro enxoval da segunda filha. Esta é do mestre-de-obras que jurou, mas não cumpriu, que a tiraria daquela vida.

Vendendo gargantilhas, brinco e anel de plástico, comprou o primeiro uniforme da terceira. Esta de um porteiro que não jurou nada, mas imitava o Erasmo Carlos como ninguém!

Chuva, calor e dias longos.
A primeira foi morar com os padrinhos. A comadre sofria de gastura nos rins e queria companhia..
A segunda ficou com a mãe. Sabia fazer conta de cabeça.
A terceira, que tem problemas de asma, foi morar com a avó paterna no interior.

O posto de gasolina que surgiu de repente e a loja de conveniência que veio junto obrigaram Quitéria a vender palavras cruzadas e DVD piratas.
Sangue e areia, Pássaro azul, Imitação da vida e a Regra do jogo.
Queda nas vendas. Duas bandeiras novas em um raio de quinhentos metros.
Solução: meninas frentistas de suplex amarelo, um baby look verde piscina e um boné. Sem contar a exigência de ficar no carão e muito bem maquiada.

Cidão, a Maria Aparecida, era a que ganhava melhor gorjeta: não usava calcinha.
Dava para ver da distancia de um quarteirão maravilhoso o capô de fusca.
Fila, fila e fila de fregueses. Todos urgentes!
Uma tarde, Cidão cruzou o olhar com Quitéria. Quitéria cruzou o olhar com Cidão.
A segunda filha estranhou que a moça tinha feito xixi na calça na frente de sua mãe.

Nunca ser a primeira a iniciar o contato. Não aceitar um convite de última hora. Esperar datas especiais. Ter exclusividade.
Cidão tirou a Quitéria daquela vida.
Moram juntas no apartamento de dois quartos. A Quitéria era o pau para toda obra.
Cidão tatuou o nome da companheira no alto da virilha.
Quitéria usava a aliança de compromisso somente em casa delas.

Cidão tinha ciúmes, medo e ódio

Quitéria não podia conversar com a caixa do supermercado que vinha uma bronca.
Não podia paquerar uma moça na cabeleireira que estava instaurada uma discussão.
Não podia nem trocar uma bitoquinha com a menina do outro posto que vinha logo um bofete.

Depois do terceiro dente quebrado, Quitéria foi embora.
Carne de terceira, brinco de plástico e a Imitação da Vida.
Cidão implorava para que voltasse. Quitéria recusou, afirmou que a relação sufocava.
Cidão rogava para que retornasse. Quitéria enjeitou a proposta. Disse que a vida era melhor assim.
Cidão suplicava para que regressasse. Quitéria não aceitou. Mentiu dizendo que tinha encontrado outra pessoa: distinta, jeitosa e bem-dotada.
Em um final de tarde, Cidão atirou na Quitéria e em um freguês dela, homem distinto e bem jeitoso, que não tinha nem entrado na história.

Anúncios

4 comentários sobre “CIDÃO E QUITÉRIA

Por gentileza: comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s