Minha tia

Tia Júnia 3

Velório

Cheguei antes.

Cheguei antes no funeral de minha tia. Tia Júnia, 5 de maio de 2011.

Tinha falecido no dia anterior, em uma quarta.

Seis e meia, o sol aparece como todos os dias, sem nenhuma diferença.

Uma boa manhã quente para velar

Ligo para um. Conto sobre o falecimento.

Ligo para outra. Conto todo o padecimento.

O corpo chega e o apressado condutor leva a para outra sala. Não era ali.

Minha tia ficará aqui.

Com ajuda, trago para a sala sete.

Abre o caixão.

Ela está li. Morta.

Morta e diferente da agonia babada que passou.

Morta e diferente do torpor que viveu nestes últimos dias.

Ela está morta.

Meu segundo choro. Choro de dobrar as pernas. Com quem vou contar?

Choro pedindo desculpas por faltas que nem sei se fiz.

Choro rezando para que esteja em um bom lugar.

Choro constatando que agora vou poder descansar.

Toca o telefone. Minha irmã diz que tem vários problemas para vir. Consolo. Desobrigo. Sem problema. Já morreu!

Chega minha filha. Minha filha chora de pingar.

Meu terceiro choro disfarçado. Fiquem aqui. Não a deixe sozinha. Vou e volto.

Enxugando as lágrimas: pago o velório e peço para abri o túmulo. Temos desde 1939.

Chegam amigas, parentes e vizinhas.

Conto os últimos dias. Foi depois da queda.

Reconto as ultimas horas. Semana passada ela estava até conversando.

Minha mãe chega e meu irmão não veio. Tinha a esperança.

Conversamos, choramos, rimos com a minha tia ali.

Saio para fumar.

Na quinta tragada, ouço minha tia me chamar. 

Tia Júnia 4

Oração 

Meio dia. Os coveiros também almoçam.

Falta uma hora para o enterro.

Uma amiga de longa data vai fazer uma oração. Fala do tempo de menina de minha tia, fala de meu pai, de meu avô e de minha avó. Ninguém chora.

Pai Nosso que estais no céu. Santificado seja o vosso Nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. Vejo meus irmãos e eu esperando a minha tia chegar na esquina. Ansiosos, com borboletas no estômago que somente voam quando ela vira a esquina. Revejo os meus presentes, o carinho, o pudim e o seu cantarolar.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém. Lembro das conversas de quando morei com ela. Lembro das chamadas quando chegava tarde, apesar de ter avisado. Sinto a comida no forno, as histórias do dia e o seu sorriso.

Na primeira Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Conversavamos intensamente milhares de assuntos. As perguntas impertinentes com respostas pertinentes.

Na segunda Santa Maria. Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte, revejo o rosto resignado de quando a internei. Ela estava deixada. Iria para onde eu a levasse.

No terceiro senhor é convosco, penso que a morte serena tudo. Ela serena. O um raio de sol ilumina a mão dela e bendita sois Vós entre as mulheres.

No quarto fruto do vosso ventre, Jesus, choro pensando que somente desejarei um feliz dia das mães para a minha mãe. Choro pensando que a morte é escura. Choro pensando no que mais sentirei falta quando eu morrer.

Na quinta Ave Maria, cheia de graça, constato que deixei de avisar a Dona Irene, o rapaz do posto que pegava limão, o Placides e a moça de imobiliária. Santa Maria Mãe de Deus.

Na sexta rogai por nós pecadores. Sei que um dia estarei assim também. Recapitulo todos os momento que deveria ficar de boca fechada. Das horas que sai sem me despedir. Dos dias que não telefonei. E que não estava na penúltima terça feira de dezembro, para levanta-la quando caiu. Pecadores.

Na sétima, constato que não sei rezar. Agora e na hora da nossa morte.

Na oitava, a minha filha olha para mim e minha mãe para o teto. Quanto tempo leva para dissolver uma magoa? Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.

Na nona agora e na hora da nossa morte, vejo o neto de uma prima brincando de carrinho. Ele tem o mesmo nariz da minha tia.

Na décima: Saio para fumar.

Na quinta tragada, chamo e espero que ela me ouça.

Amém. 

Enterro

Sepultamento

Fazemos o mesmo caminho no cemitério.

O mesmo que fiz em milhares de domingos. Limpávamos o nosso túmulo. Rezávamos. Depois era o mercado e uma sessão de cinema no Politeama.

Deparo com os mesmos túmulos de todas as vezes.

Faço as mesmas perguntas: Quem é aquele? Um grande prefeito que morreu lendo um livro. De que é aquele? De uma moça que morava na Rua do Porto e morreu esperando o namorado voltar da guerra. O que aconteceu com aquele? Morreu depois de um jogo do Quinze, pensou que o time ia ser campeão e morreu do coração.

Desta vez ela não respondeu.

Sol a pino. Quente.

Os pássaros voam como sempre.

As pessoas falam. Algumas ali riem. Outras trabalham. Estão construindo um oratório para o dia das mães.

Nós estamos enterrando a tia Júnia.

Descemos a nossa quadra.

O dia ficou mais brilhante. Minhas pernas pesam. Queria sentar e chorar. Chorar sentado. Sem segurar. De perder o fôlego. Chorar até dormir e acordar percebendo que não passou de um delírio.

O silencio me doeu. Vamos ficar aqui? Todos nós? Cabe?

Túmulo aberto.

Caixão para lá. Abrem. Ninguém chora.

Passam devagar. Despedem.

Agradeço tia, a doce companhia que me fez.

Agradeço os deliciosos dias que vivi com você.

Agradeço os vitais conselhos que muitos nem segui.

Agradeço, tia, a saborosa vida que tivemos.

Ela foi colocada.

Depois, em um saco preto a minha avó e em outro o meu pai. Vai estar escuro. Não tem medo?

Saio fumando.

Na quinta tragada, não ouço nada.

Queria ouvir.

Amém.

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2 comentários sobre “Minha tia

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