A BAILARINA E O SOLDADO

  Bailarina

Chovia e o barco de papel descia o rio a toda velocidade.

Não vai durar muito tempo” pensou o Soldado sem um braço. Mas mesmo assim tentava manter o barco firme, no rumo.

Olhou para trás e viu um enorme tronco de madeira vindo em sua direção. Inclinou o barco um pouco e o tronco passou raspando pela sua proa. Resolveu ir para o fundo do barco. Dali podia controlar melhor.

Respirou aliviado.

Viu um enorme bueiro. Viu um redemoinho e pensou na Bailarina.

 

A Bailarina dançou para esquecer ele.

Dançou a mais para derretê-lo do coração.

Muito depois, dançava apenas pelo gosto de dançar.

 

O Soldado se jogou no fundo do barco. Ficou de cara enfiada no papel. Lembrou no dia que lhe arrancaram o braço. Daquele dia em diante, sempre era o último a ser escolhido mas o primeiro a morrer. Muitas vezes os traídos e outras o inimigo.

 

Um e dois. Três e quatro. Respirou.

Um e dois. Três e quatro. Transpirou.

Um e dois. Três e quatro. Inspirou.

Um e dois. Três e quatro. Suspirou.

 

Levantou com dificuldade e voltou para a popa. O barco estava se desfazendo. Caiu n’água e nadou com um braço só. Pulou com um pé só ….

Sentiu alguma coisa bater no seu lado direito, era uma enorme ratazana preta. Agarrou o animal. Respirou.

A chuva parou ….

 

A música parou e a Bailarina olhou para a lembrança dele e sentiu que não sentia a dor de gostar dele do jeito que gostou.

 

A ratazana deu um salto e caiu de barriga na calçada.

Ficaram alguns minutos estatelados no cimento.

O Soldado de um braço a incomodou, ela mordeu, ela pulou e o jogou para longe.

 

A Bailarina fez um pliés.

O Soldado de um braço foi encontrar com a Bailarina.

 

Ele chegou quase seco, pingos pequenos caíram no chão.

Disse oi e sorriu. Ainda ela era linda, mas não sufocava.

 

Ela sentiu dor no pé, bem na ponta da sapatilha. Deu um salto e relaxou as pernas.

Disse oi e sorriu. Ainda ele era gentil, mas não a fascinava.

 

Ele sorriu e corou. Ainda era fascinante, mas não entorpecia.

 

Ela sorriu e olhou, ainda era mas não como era.

Ela disse que não escreveu.

Ele disse que não chorou.

Ela disse que esqueceu.

Ele mentiu e disse que pensou.

Ela mentiu e disse que acreditou.

Ela dançou.

Ele disse até.

O chão ficou seco logo, pôde continuar a dançar.

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