Quase uma ficção

Ovni_mini

No ano de 1993, depois de dez anos, meu pai reapareceu em uma quinta.

Quase três da tarde.

Ele tinha sumido em uma terça de 1983 pela hora do almoço.

Fingiu que não me reconhecia. Quem é você?

Minha mãe, um pouco. Sua expressão não me é estranha?

Minha irmã, com clareza. Minha mais querida filha, como você cresceu!?! Casou?

Minha mãe ficou chocada, minha irmã emocionada e eu sai da sala para não gargalhar na cara do pilantra.

Passaram os dias e aquele embusteiro, que se fazia de esquecido, foi lembrando.

A cada história, minha mãe foi ficando mais escandalizada. Minha irmã, amorosa e eu com vontade de furar os olhos daquele desgraçado!

Todo tempo jurou que não foi “comprarcocacomcascodepepsi” e nem “comprarcontinetalsemflitro”.

Para os parentes, contou que voltava de uma vigília de Santa Brígida quando foi surpreendido por uma luz vermelha. Que de um pontinho virou um pontão. Disse que era um tipo de pirex voador.

Para os vizinhos, que a coisa pousou pertinho. De repente, a parte de baixo da coisa se abriu e meu pai tentou correr, mas foi pego por um raio verde que deixou as pernas duras e presas no chão. Aí ele viu um baixinho, que andava “quinze para as três” e tinha olhos grandes, cabeça pequena e orelhas de abano, tipo Dumbo! Contou, também, que agarrou o camaradinha pelas orelhas e deu uns tapas. O bicho grinchou e deu um chute no queixo de meu pai que caiu feito um saco de bosta!

Para o pessoal do bar, afirmou que quando acordou: estava nu e com outros dois Dumbinhos passando um tipo de óleo. Refrescante e adstringente. O calhorda jurou que, apesar do medo, se sentia renovado.

Para um jornal de circulação nacional, assegurou que um terceiro baixinho trouxe uma gosma azul que enfiaram goela abaixo. Gosto de Tubaina com Sonrizal. Ficou zuretão! Ficou durão! Ficou entumecidão. Do meio de uma luz âmbar saiu uma mulherzona, um guarda roupa duplex, peladona e com três vaginas. Duas delas embaixo dos braços… e aí ela fez a festa.

Na televisão, em uma sexta, depois da novela, meu pai relatou que quanto mais cansava, mais gosma engolia e mais comia as axilas da gigantona. Disse que sovacou pelo menos quatro bitelonas e duas bitelinhas. Uma hora deram mais da gosma, que não firmou: relaxou. Meu pai desfaleceu e quando acordou estava perto da casa de minha mãe. Correu para lá e viu que se passaram dez anos.

Meu pai virou notícia.

Segurei a revolta.

Minha mãe ria alto e minha irmã agradecia a São Judas Tadeu.

Nunca falei nada, mas já tinha cansado de encontrar o pilantra em inferninhos ou dando umas voltas na cidade. Sempre se achando, sempre pondo banca. Teve vezes que me via e fingia que não me reconhecia.

Deixei quieto.

Muita lorotas.

Teve um dia de Natal que falei que ele era mentiroso. Contei tudo. Meu pai com a maior “cara babada” disse: Devia ser um robô-cópia! Eles tinham isto, sabia?

Deixei mais quieto ainda.

Um dia: meu pai morreu. Sábado, manhã da véspera do “Dia dos Pais”.

Minha mãe desidratou de tanto chorar.

Minha irmã ficou muda.

Eu nem aí.

Não sei quem foi o otário que decidiu que o enterro só na manhã seguinte. Domingo!

Na tarde e um pouco da noite de sábado: aquele desfile:

Bom homem!

Vai fazer falta!

Lamento muito!

E

Quem era ele? Seu parente?

 

Cansadas, minha mãe e minha irmã, insistiram que eu ficasse velando o defuntão a noite toda.

Topei.

Eu e o meu pai. O pilantrão e eu! Oba!

Noite quente.

Fiquei fumando na porta. Ora olhava para o caixão, ora olhava para o tempo.

O cheiro azedo do meu pai inundava o ar das minhas lembranças. Não chorei.

Nem tive tempo de contar para ele o que fiz na sua ausência.

Talvez pelas duas da manhã, vi a galalau chegar. Fiquei com os meus pés colados do chão. Seria o raio verde agora incolor?

A bitelona nem ligou para mim. Foi até perto do caixão e relinchou. Alto e dolorido de apertar o peito.

Depois entraram três galalaus médias, parecidas com a minha irmã, e zurraram de cortar o coração.

No meio daquele banzé, aparecem os três Dumbinhos que granaram de forma lancinante.

Logo atrás veio dois meio altinhos, de orelhas menores e muito parecidos com o meu tio de Ribeirão, que gorgolejaram de dar dó.

A lamentação foi triste. Quase chorei.

No meio daquele desalento todo nasceu uma luz âmbar.

Intensa, me cegou e sumiu.

Sumiu com tudo: uma coroa com crisântemos azuis que o pessoal do bairro mandou, minha jaqueta jeans que ganhei da Christina, o livro de presença, os castiçais descascados, os meus documentos que estavam na jaqueta, um bêbado que deixei dormir atrás da mesinha do café, o livro que tinha emprestado da Emília, um quadro da Santa Ceia, a minha carteira de cigarros fechado, um tule de nylon verde e o caixão com meu pai dentro.

Sobrou abrir um boletim de ocorrência dizendo que indivíduos indeterminados roubaram o meu pai.

Da coletânea: Coração Peludohttp://cervejaerua.wordpress.com/

 

Anúncios

Um comentário sobre “Quase uma ficção

Por gentileza: comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s