ÔNIBUS

Ônibus 2

Minha mãe sempre me levava de ônibus para a escola.

Lá eu ficava o dia inteiro. Brincava, lanchava, tomava meus remédios, almoçava, brincava, lanchava e tomava outros meus remédios.

 A canoa virou

Por deixar ela virar

Foi por causa do Luiz que não soube remar.

Se eu fosse um peixinho

E soubesse nadar

Tirava o Luiz do fundo do mar.

As tias, que não eram irmãs da minha mãe e nem do meu pai, mais tarde: me davam banhos, trocavam as minhas fraldas e o jantar.

Meio de soneca, quase de noite, minha mãe me pegava e de ônibus me levava para casa.

Sempre na ida e muitas vezes na volta, no ônibus estavam: a moça de calça apertada, a de barriga de fora, a com cara de peixe, a magrela de blusa florida, a gordona com a bolsa grande, a velha que peidava fininho, o casal de pombinhos, o vesgo que falava sozinho, o homem que rezava baixinho, o rapaz com uma tiara no cabelo, o velho fedido, a menininha faladeira e sua mãe fofoqueira.

O motorista sempre era o mesmo e só mudavam os cobradores.

Eu preferia a moça com um brinco no nariz. Ela gostava de cantar e contar piadas.

Já o velho de bigode pintado de preto, era muito rabugento, mas sempre dava bala para mim.

Minha mãe não gostava dele! A amiga dela sim!

— O que aconteceu que não veio ontem?

— Fiquei resfriada…

 

— Vai piloto! A gente tem família para cuidar!

 

— Não veio ontem?

— Acordei atrasada, o meu neguinho chorou a noite toda!

 

— Motorista, para de paquerar. Vamos! Vamos!

 

— O que aconteceu?

— Meu marido voltou ontem …

 

— Um passinho pra frente por favor .

 

— Motorista! Isto aqui não é avião, não;

 

— Um passinho para trás, por favor!

 

Outro dia, em uma ida:

— Ele me deixou — disse o rapaz com uma tiara branca no cabelo, unhas pintadas e os olhos inchados

— Fica assim não — disse a moça de calça apertada que estava com uma saia branca também apertada.

— Falou que não agüentava mais viver comigo

— Fica assim não

— Quero morrer … meu Deus … morrer!

Na volta de outro dia, o rapaz com uma tiara verde no cabelo e com as unhas borradas conversava sobre flores e sementes com o homem que rezava baixinho.

No banco de trás, vi a menina faladeira brincando com a boneca.

Borboletinha

Tá na cozinha

Fazendo chocolate

Para a madrinha

Poti

Poti

Perna de pau

Olho de vidro

e nariz de pica pau

Pau

 

— Motorista! É casado com mulher feia? Senta a ripa!

Numa noite fria e chuvosa. Todas as janelas estavam fechadas. Eu apreciava o teto e o ônibus parou em um ponto. Entrou um homem muito grande, muito bonito e muito barbudo que carregava um saco sujo. A amiga da minha mãe falou que ele fedia xixi!

Todos ficaram com medo. Eu não tinha medo do homem do saco.

Ele foi andando pelo corredor de cabeça erguida, olhando para todos.

Parou do lado da minha mãe.

— Qual o nome dele?

— Luiz — disse a minha mãe não olhando para o bonito homem do saco

— Num é muito grande para ficar no colo?

— Não é da sua conta!

— É muito babão também!

— Não é da sua conta.

— Parece meio debão …

Minha mãe olhou feio para o homem bonito com cheiro de xixi.

Ele ficou olhando para mim. Sorriu.

Sorri.

Riu

Gritei.

Riu mais.

Sorri e gritei.

Logo desceu. O cheiro do homem bonito ficou.

— Motorista! Na próxima vez que abrir a porta pra esse sujeito, vou reclamar com o fiscal!

 

Outra ida.

— Ele me deixou! — disse a moça de calça apertada com um vestido creme muito apertado, que dava para ver a calcinha vermelha e com os olhos inchados.

— Fica assim não — disse o rapaz com uma tiara cor de rosa no cabelo

— Falou que não agüentava viver comigo.

— Fica assim não

— Quero morrer … Meu Deus … morrer!

Na mesma volta, a moça de calça apertada com um com um vestido creme muito apertado que dava para ver a calcinha preta conversava com a cobradora e ria alto das piadas.

No banco de trás, ouvi da menina faladeira brincando com a boneca: 

Fui certa vez na casa do japonês

E o japonês taco cigarro no chão

A japonesa começou a me ameaçar

E o japonês quis por a bomba em minha mão

e disse então: Cata aí

cata aí

cata

cata aí

cata

cata aí

cata

cata

cata já

Tu me mandou cata Japão?

Cata aí tu que tu que taco no chão

Outro dia o meu pai me levou para a escola. Foi no mesmo dia que a minha mãe caiu da escada e ficou com o olho roxo.

Entramos no ponto de sempre.

Ele me colocou sentado sozinho no banco. Não consegui ficar parado. Queria ficar, mas não conseguia. Meu pai me ajeitou e ficou de pé. Não queria deixar o meu pai bravo. Sempre que ficava bravo a minha mãe caia da escada.

À noite, o meu pai demorou muito!

Na escola sobraram: a tia Dalva, eu e o vigilante, Seu Zé.

A tia Dalva falou para o meu pai que não podia fazer aquilo comigo.

Meu pai gritou para a tia Dalva que eu era um retardado.

Tia Dalva gritou que não podia dizer aquelas coisas na minha frente.

Meu pai gritou mais alto que eu era um bocó de mola.

Tia Dalva chorou e o Seu Zé mandou o meu pai me levar logo.

 

Meu pai me carregou.

Carregou muito apertado. Bufou e falou baixinho que eu era um imbecil.

No ponto, disse que eu estava muito pesado.

 

Na ultima volta, o motorista deixou o ônibus cair em um córrego.

Voei do colo da minha mãe e bati a cabeça e depois todos brincavam de roda

Sapo Cururu

Na beira do rio

Quando o sapo grita:/ ó Maninha

Diz que está com frio

A mulher do sapo

é quem está lá dentro

Fazendo rendinha

ó Maninha

pro seu casamento.

Procurei a minha mãe e ela pulava corda com o rapaz com uma tiara azul celeste no cabelo.

Ela me viu, me beijou e voltou a pular.

Quis chorar e me chamaram para brincar de roda.

Ciranda

cirandinha

vamos todos cirandar

Vamos dar meia volta

Volta e meia vamos dar

O Anel que tu me destes

era vidro e se quebrou

O Amor que tu me tinhas

era pouco e se acabou

Por isto o Seu Luiz

faça o favor de entrar na roda

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá se embora.

Fui para o meio da roda e disse que sou pequenino com a cabeça torta e meu pai não gosta.

Todos deram as mãos e com um grande pulo até na lua!!

 

Fui morar com a madrinha da minha mãe. Ela acha que meu pai foi embora para o Paraná.

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3 comentários sobre “ÔNIBUS

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