5. Baila Comigo

 Baila comigo2

Maria Queribum, Queru, a única detetive da Praça da Sé que abre aos domingos e nas noites de quinta é assistente de direção do Coral Idosas de São Gonçalo em São Caetano.

Começou na final dos anos 80, quando conheceu a Dina Figueira em um espetáculo para a classe do Grupo Teatro do Ornitorrinco, foi a peça “Ubu Rei” de Alfred Jarry. Conversaram mil coisas, beberam Absinto e combinaram uma parceria: auxiliá-la no coral formado por senhoras com mais de sessenta anos da região do Abc.

Em 1994 tinham em seu repertório: “Thriller”, “Entre tapas e Beijos”, “Bem que se quis” e quase todas as músicas de Antônio Marcos, “Se eu pudesse conversar com deus” e “Menina de tranças”. Dina sempre foi apaixonada pelo Antônio Marcos. Afiança que perdeu a virgindade para ele em sua casa no Brooklin e que, de tanto xingar a Vanusa, fez ela perder o primeiro filho do casal!

Em junho de 94, o coral tinha uma série de apresentações me homenagem ao aniversário da cidade de São Caetano. Queru chegou em cima da hora, pois estava voltando de Cosmópolis, resolverá um caso de sequestro, quando encontra “as meninas” acabrunhadas

— Cinira não apareceu — bufava Dina — não poderemos ensaiar o “Acalanto” sem essa tonta!!!

Cinira era a melhor contralto do Grupo, uma velhinha de 73 anos, mas com uma voz limpa e segura.

Queru questiona a ausência. Todas dizem que não sabem, Porém a detetive percebe uma troca de olhar entre a Dona Sandra de São Bernardo e a Dona Letícia de Santo André.

Terminado o ensaio em que Dona Luiza solou com muito swingue: “Você não soube me amar”. Queru acompanha Sandra e Letícia até o ponto de ônibus na Avenida Goiás.

— O que aconteceu?

— Nada — respondem as duas no mesmo contratempo.

— O que aconteceu??? — usou o seu meio soprano.

Duas do “Trio ternura”, como eram conhecidas no Coral, contam em prantos, durante a passagem de três ônibus, que Cinira, Sandra e Letícia, viúvas, ativas e adoravam dançar. Faziam isto em todos os sábados no Clube Atlético Gamboa em Santo André. Havia um baile para os mais idosos com músicas da década de 50 e 60. Como todo evento com muito mais mulheres do que homens. Varões disputados a pau. Elas sempre chegam as 18hs e somente saem no final 23:45hs. Dividem um taxi que leva a Letícia, depois a Sandra e por último a Cinira, que mora no Ipiranga, São Paulo.

No sábado recente, dançaram muito e tomaram um taxi, não o de Antenor, taxista amigo, mas de um outro, mais velho, Hermes, com jeitão de pastor adventista. Foi feito o cortejo. Dia seguinte Sandra liga para Cinira, pois tinha perdido a carteira com as fotos dos netos de Nuporanga, quando a amiga a atende em prantos. Afirmou que sozinhos, o Hermes, lançou olhares libidinosos, eróticos e excitantes. Cinira gostou mais não correspondeu. Na frente de sua casa, ele pede para ir ao banheiro, Cinira, ingenuamente, permite. Foi estrupada, estrupiada e teve a casa toda roubada.

— Chamou a polícia?

— Está morta de vergonha?

— Falou com o outro taxista?

— Ele falou que não conhece nenhum Hermes. Naquele dia ele teve problemas com o filhote de dálmata que tem.

— Tem que denunciar!!

— Cinira não quer mais nada!!

Queru deixou subir a raiva.

Ódio.

Abominação

Cólera

Fúria

Ira

Nojo

Repulsão

Sanha

E na manhã seguinte estava batendo na porta da casa de Cinira.

Bateu até a mão doer.

Até quase rachar a porta.

Cinira atende e chora. Está magra, envelhecida e com um cinza sem ânimo.

Queru abraça forte a amiga. Choram.

Sem falar, arruma a casa, dá um banho na idosa, ajeita seu cabelo, faz as unhas, o almoço, o café da tarde e canta para ela dormir. Só sai depois da chegada de Letícia e Sandra e a garantia que elas desgrudarão dela!

No Bairro Paraiso, perto do Clube Atlético Gamboa, no ponto de taxi, no final da Avenida Pereira Barreto com a Rua Ibiapava, com um soprano dramático e trejeitos delicados, pede para conversar com o Antenor, que não está. Tristonha diz que tem uma surpresa para ele. Deixa escapar que o taxista irá receber uma bela bolada. Percebendo o deslize: pede segredo.

Depois afirma, que o esperará na Padaria do Jardim Estela.

 

Uma hora depois e três pingados o taxista chega com os cabelos molhados.

— Dona Cinira morreu e deixou uma bela herança para o senhor

— Lamento muito… gostava daquela velhinha! Quanto?

— Não sei… mas a advogada dela pediu para eu o encontrar e o levar para falar com ela …

— Quando?

— Pode ser agora?

— Sei lá …

— Num sei quanto o senhor irá receber, mais estão pagando quase três vezes mais para mim, só para encontra-lo …

— Vamos!

Sentanda na frente, Queru o orienta para ir em direção a São Mateus.

Quando estão passando pela Três Divisas, pede que pare um instante. Tira um par de agulhas de crochê e uma arma pequena. Uma é espetada entre suas pernas.

— Quem abusou da velhinha?

— Num sei nada disso …

Devagar enfia  a outra na perna dele.

— Quem abusou da velhinha?

— Num sei onde está não?

Tira e crava na virilha.

— Ele mora em São Paulo …

— Nome e onde?

— Acho que Adalberto… — enfia outra no ombro — não… Gustavo e mora no Jardim São Luiz. Tenho o telefone dele …

— Liga para o pilantra de diz que tem uma corrida para ele, hoje, saindo da Praça da Sé.

— Preciso de um hospital …

— Liga.

Antenor liga e sem gemer muito combina com o Hermes-Gustavo a corrida na Praça da Sé. Outra velhinha que o esperará em frente ao Corpo de Bombeiros depois das 23hs.

— Agora vamos para um pronto socorro! Você vai piar para polícia?

— Não senhora…

— Bom. Vamos

Queru o acompanha se dizendo sua mulher. Fica ao seu lado até que foi liberado.

— Casado?

— Sim

— Ganhou uma prima…

— O que ?

— Ligue para a sua companheira e diz que irá para casa de uma prima.

Meio sedado obedece. Vão para a casa de Cinira.

Antenor passa o dia todo dormindo.

Na noite, dá uma carona para todas.

Dia seguinte, Gustavo, vulgo Hermes, é encontrado em Parelheiros degolado.

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