13. Corpo a Corpo

Corpo a corpo

— Como termina a história?

Maurício descobre que a dor é amarela. Soco nas costas, empurrão e a pancada na testa, o cabo da faca deixa a marca do fabricante, faz ele prestar a atenção.

A mulher baba de ira. Os olhos azuis cobalto dão medo!

— Como termina a história?

— Que história?

A mulher loira chuta o seu saco. Baba mais! Agora a marca da faca fica no meio de sua cabeça

— Faz muito tempo que procuro por você — diz enxugando a baba — Virei meio São Paulo. Vai rapaz, não demora, como termina a história?

— Que história?

— Vai fazer gracinha como o outro? Hoje estou um pouco mais paciente… mas não muito!! Como termina?

Maurício fica quieto. O medo é loiro!!

— Faz um tempão, subi o Ceasa – Sacomã, na Avenida Lins de Vasconcellos. Só tinha este ônibus para tomar… sou casada. Bem casada, mas o meu marido viajou… sei lá … achei que ele estava aprontando… sei lá … e ai resolvi me vingar… — Maurício presta atenção, seus olhos lacrimejam — Arranjei um rapaz pela internet. Pouco  papo e muita ação: resolvi dormir com ele…

Mauricio sente as costas doerem.  Na praça Rodrigo de Abreu ninguém passa depois das onze da noite, só ele para cortar caminho. Seus olhos estão encravados nela. Com um vestido verde grudado. Ela é meio gordinha, bonita!

— Fui e ele me fez de um tudo!! Adorei, porém de manhã, me tratou estranha, pediu para sair logo da casa dele. Apenas disse para eu tomar o Ceasa – Sacomã e ir embora. Fui até feliz. Tomei na Avenida Lins mesmo. Encantada comecei a sentir culpa e nem prestei atenção quando subiram. O ônibus estava na Bernardino de Campos. Você e o seu amiginho pretinho— Maurício lembrou de Renato e pensou : “faz um tempão que não vejo ele!” — Começaram a contar um história, não sabia se era você ou ele. Descemos a Brigadeiro, Entramos na Tabapuã e naquele ponto eu me toquei que precisava descer. Fiz . Depois tomei o meu ônibus e fui para a minha casa em Embu.

Maurício não entende nada. Só pensa em correr na primeira oportunidade.

— E a culpa tomou conta de mim. Pelejei, pelejei e acabei contando para o meu marido. Que triste quase me bateu e me expulsou de casa. Minha mãe não me quis mais lá, nem meu pai. Ninguém. Sobrou tentar uma pousada na casa do rapaz da Lins. Ele nem me deixou subir para conversar.  Fiquei só. Só arranjei um quarto na Liberdade e fiquei me virando trabalhando em uma lanchonete, quando jovem não quis estudar, sabia?.

Maurício não sabe o que dizer.

— E um dia me veio a história: ‘Chovia e o barco de papel descia o rio a toda velocidade. “Não vai durar muito tempo” pensou o Soldado sem um braço. Mas mesmo assim tentava manter o barco firme, no rumo. Olhou para trás e viu um enorme tronco de madeira vindo em sua direção. Inclinou o barco um pouco e o tronco passou raspando pela sua proa. Resolveu ir para o fundo do barco. Dali podia controlar melhor. Respirou aliviado. Viu um enorme bueiro.’ Lembra?

Mauricio não diz nada

— Eu queria saber o final dela. Tentei lembrar quem contava. Num consegui. Um dia, passou em frente da lanchonete o pretinho. Larguei tudo e fui atrás dele. Peguei ele na esquina da Rua da Glória e perguntei pelo final da história. Ele se fez de desentendido e me deixou falando sozinha. Fui atrás agarrei a blusa dele, até rasgou, e ele me deu um soco na boca. Deu até policia e eu perdi o emprego. Sorte foi que um outro freguês da lanchonete teve piedade de mim e me arranjou um lugar para morar e só precisava cuidar de uns quarto que ele alugava para as moças da esquina. Só trabalhava a noite e deu tempo de caçar o seu amiguinho: ‘Chovia e o barco de papel descia o rio a toda velocidade. “Não vai durar muito tempo” pensou o Soldado sem um braço. Mas mesmo assim tentava manter o barco firme, no rumo. Olhou para trás e viu um enorme tronco de madeira vindo em sua direção. Inclinou o barco um pouco e o tronco passou raspando pela sua proa. Resolveu ir para o fundo do barco. Dali podia controlar melhor. Respirou aliviado. Viu um enorme bueiro. Viu um redemoinho e pensou na Bailarina. A Bailarina dançou para esquecer ele. Dançou a mais para derretê-lo do coração. Muito depois, dançava apenas pelo gosto de dançar. O Soldado se jogou no fundo do barco. Ficou de cara enfiada no papel. Lembrou no dia que lhe arrancaram o braço. Daquele dia em diante, sempre era o último a ser escolhido mas o primeiro a morrer. Muitas vezes os traídos e outras o inimigo. Um e dois. Três e quatro. Respirou. Um e dois. Três e quatro. Transpirou. Um e dois. Três e quatro. Inspirou. Um e dois. Três e quatro. Suspirou. Levantou com dificuldade e voltou para a popa.

Ela guarda a faca. Maurício vê uma oportunidade. Fica de pé e avança nela. A Gordinha lhe chuta a canela e mostra que tem uma arma na mão!

— Num acabei. Ajoelhado e com as mãos na cabeça.

Maurício demora um pouco e leva um chute no meio das pernas, ajoelha.

— Demorou um tempão para eu achar o seu parceiro. Foi um dia passando em frente ao Teatro Sérgio Cardoso e vi o pretinho saindo. Segui ele até a Rua Aanhandava. Por ser de dia, nada fiz. Esperei uma semana e o encontrei na escadaria que dá para a Nove de Julho. Soco na boca, chute na barriga e perguntei para ele: Como termina a história? Ele se fez de desentendido e repeti tudo para ele: ‘Chovia e o barco de papel descia o rio a toda velocidade. “Não vai durar muito tempo” pensou o Soldado sem um braço. Mas mesmo assim tentava manter o barco firme, no rumo. Olhou para trás e viu um enorme tronco de madeira vindo em sua direção. Inclinou o barco um pouco e o tronco passou raspando pela sua proa. Resolveu ir para o fundo do barco. Dali podia controlar melhor. Respirou aliviado. Viu um enorme bueiro. Viu um redemoinho e pensou na Bailarina. A Bailarina dançou para esquecer ele. Dançou a mais para derretê-lo do coração. Muito depois, dançava apenas pelo gosto de dançar. O Soldado se jogou no fundo do barco. Ficou de cara enfiada no papel. Lembrou no dia que lhe arrancaram o braço. Daquele dia em diante, sempre era o último a ser escolhido mas o primeiro a morrer. Muitas vezes os traídos e outras o inimigo. Um e dois. Três e quatro. Respirou. Um e dois. Três e quatro. Transpirou. Um e dois. Três e quatro. Inspirou. Um e dois. Três e quatro. Suspirou. Levantou com dificuldade e voltou para a popa. O barco estava se desfazendo. Caiu n’água e nadou com um braço só. Pulou com um pé só …. Sentiu alguma coisa bater no seu lado direito, era uma enorme ratazana preta. Agarrou o animal. Respirou. A chuva parou… A música parou e a Bailarina olhou para a lembrança dele e sentiu que não sentia a dor de gostar dele do jeito que gostou. A ratazana deu um salto e caiu de barriga na calçada. Ficaram alguns minutos estatelados no cimento. O Soldado de um braço a incomodou, ela mordeu, ela pulou e o jogou para longe. A Bailarina fez um pliés. O Soldado de um braço foi encontrar com a Bailarina.

Maurício lembrou a história!!

— Ele me disse que não era ele que estava contando. Falou de você! Pedi o seu endereço. Ele disse que não sabia! Implorei, não disse. Dei um tiro na perna dele e chorando ele não disse nada da história e somente que você tomava o ônibus na Estação Paraíso. Um no peito e ele morreu quieto.

Maurício lembrou que ele conheceu o Renato um dia de happy hour.

— Sim ele falou que tu era viciadão no bauru do Ponto Chic. Esperei até hoje. Como termina a história???

— Num lembro — e levou um tiro no pê — não lembro mesmo!! Sei lá … acho que li em um blog!!

— Num era sua a história?

— Não…

— Bosta! Pensei em quem tivesse escrito uma história assim poderia me ajudar … Que blog?

— Não me lembro mesmo … mas se me deixar ir … posso procurar …

A gordinha, cabisbaixa, vai embora em direção da Bernardinho de Campo. Maurício levanta só quando ela some de vista.

Vai mancando até a beirada da Avenida.

Na esquina com a Rua do Paraíso tem uma padaria aberta. Vai?

Não.

A gordinha atira nele: Na cabeça.

Fulminado cai

Ela acessa ali mesmo, pelo celular, procurando o blog da história ….

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