5. Anjo Mau

 Legião - Anjo mau

Maria Querubim, Queru, a única detetive da Praça da Sé que abre aos domingos, acordou no último dia 12 de janeiro com as pernas pesadas, alma turva e boca seca.

Achou que era a idade.

A vista.

O medo de envelhecer. Não é mais menina. Não é mais convidada para casamentos ou batizados e sim para visitar amigos com doenças terminais ou enterros de meio da tarde.

Levantou lerda.

Meio café e lutou contra a vontade de acender um cigarro. Somente depois das nove!

Outro café e meio. Lembrou da avó… é… faz 45 anos que a avó Paula morreu. Ligou um cigarro.

Chegou em Procópio, nos seus onze anos, com pai. Vieram ver a avó que tinha tido um derrame dias antes. Da estação de trem até a casa: coração mudo. Pai com semblante sério, não brincou, nem contou histórias ou falou de velhos amigos ou antigos lugares!

Chegaram e a avô estava na varanda sendo penteada pela tia Esther, irmã do pai. Queru comprimentou a tia e pediu benção para avó.

— Quem é esta menina — questionou a avó para a filha.

— Maria Querubim, a mais velha do José Carlos.

— Nossa parece um anjinho — sorriu e depois séria — Não deve ser anjo não. Não existe anjo preto e nem bundudo como essa menina!! Já sei: ela é um Anjo Mau!! — e riu até engasgar.

Queru desaguou e o pai mandou ir brincar na rua.

Ela engolindo foi.

Vizinhos vieram consolá-la e chamaram para jogar bola

Queru foi ficar no gol! Agarrou duas bolas.

Grito de tia Esther. O ataque parou!

Começou um entra e sai. Tias e primas mais velhas com pressa.

Chegou um médico ou enfermeiro.

Chegou o padre Oswaldo!

Saiu da casa da avó a vizinha, Dona Alexandrina.

— Vamos merendar em casa — meio time e Queru seguiram a encantadora.

Bolo de laranja.

Chocolate frio.

Sanduiche de queijo!

Comeram de boca aberta.

— Conta uma história, mãe — pediu o filho do meio da Dona Alexandrina.

‘Dois homens distintos e bonitos chegaram em uma cidade, bem para lá do Rio São Silvestre, Anael e Querubim. Andaram pela cidade. Ali tomaram café, acolá leite e mais adelante água. Chegaram até a casa de Lourenço, que estava sentado à porta. Quando os avistou, levantou-se e foi recebê-los e disse: “Meus senhores, por favor, acompanhem-me à casa do seu servo. Lá poderão passar a noite e, pela manhã, seguir caminho”. “Não, passaremos a noite em algum hotel ou pensão”, responderam. Mas ele insistiu tanto com eles que, finalmente, o acompanharam e entraram. Lourenço mandou preparar-lhes uma bela refeição e eles comeram. Ainda não tinham ido deitar-se, quando todos os homens de toda parte da cidade, assanhados pela beleza e formosura da dupla, dos mais jovens aos mais velhos, cercaram a casa. Chamaram Lourenço percebeu que estavam todos meio abilolados e de bode. Disseram: “Onde estão os bonitões que vieram à sua casa esta noite? Vamos te dar uma dica: Traga para cá pois queremos traçar eles!”. Lourenço saiu da casa e disse: “Não, tão birutas? Não façam essa picaretagem! Vai dar Zebra!”. “Se manda seu quadradão!”, gritaram e ameaçaram invadir a casa. Lourenço é puxado para dentro por Querubim. Tremendo de medo ouviu de Anael,”Você tem mais alguém na cidade? Tire-os daqui, porque vamos explodir este lugar.” Lourenço , esposa e filhas foram arrumar suas coisas. “Depressa” disseram Querubim e Anael preparando os explosivos. Tendo ele hesitado, o agarraram pela mão, como também a mulher e as duas filhas, e os tiraram dali à força. “Fujam correndo” e de longe, ouviram a explosão que parecia que do céu, chovia fogo e enxofre. Depois …’

A prima Lia veio chamar.

— A vô Paula quer falar com você.

Maria Querubim foi até um quarto, que estava com as cortinas fechadas, um rastro de luz batia no pé da avô.

— Benção vô

Meu Deus, por que me abandonaste / se sabias que eu não era Deus, /se sabias que eu era fraco.

— Pois não?

O amor foi começado, / O ideal não acabou, / E quem tenha alcançado / Não sabe o que alcançou. / E tudo isto a morte / Risca por não estar certo / No caderno da sorte / Que Deus deixou aberto.

— Sim, vô?!?

Quando a indesejada das gentes chegar / Não sei se dura ou caroável / Talvez eu tenha medo. / Talvez sorria, ou diga: / – Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer. / A noite com os seus sortilégios. / Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar.

— Não entendi…

Vai, bunduda! Ser gauche na vida

— Não entendi…

— Deus te abençoe, filha!

— Não entendi mesmo!

Vieram tias e primas e a tiram do quarto. Enquanto uma penteava o cabelo outra troçava de roupa. Sem saber estava passeando pela cidade com os primos Lucas e Davi.

Andaram.

Passearam pelas praças

Conversam sobre Olho Vivo e Farofino, os Impossíveis e Jonhy Quest.

Anoiteceu e a fome torrou. E ali foi quando a Maria Querubim comeu o seu primeiro hambúrguer no pão francês sem miolo. Foi no Karamba’s!!

Voltaram e a avô estava morta.

A mãe de Maria chegou. Choraram pai, mãe e primos.

A tia Esther a abraçou e Queru não chorou.

— Bunduda é você, Vó!

Ligou outro cigarro.

Anúncios

Por gentileza: comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s