16. Duas Vidas

gêmeos

Maria Querubim, Queru, a única detetive, da Praça da Sé, que atende aos domingos desde 1980. Tem como lema: Não durmo no ponto!

Em uma quinta, julho de 82, encontra na porta do seu escritório em um engradado de cerveja com dois crianças recém nascidas, estavam abraçadas e sorrindo! Ainda com os tubos e adesivos de um hosítal.

Queru, com receio de ser vista pelo vizinho, um advogado de quinta a quem lhe devia uma tarefa: meteu para dentro a caixa. E trancou a porta com duas voltas.

As crianças estavam bem e muito atada uma na outra. Queru jura que ouviu risos e sons de beijos.

Queru sabia o que fazer, porém precisava ver se estavam limpos.

Pelejou.

Tentou.

Lutou.

Atacou e nada. Os bebes não se largavam!

Contragosto chamou a faxineira muda, Sra. Cotinha

Debateram.

Lidaram.

Até que conseguiram depreender.

O menino sujou-se em seguida e a menina urinou cântaros.

Imundos, ficaram quietos e sérios.

Queru não ouviu nenhum pio nem quando levou o menino para o Abrigo do São Benedito na Lapa e nem da menina quando foi para o de Santa Edith Stein na Santa Ifigênia.

Fim?

Em 1987, Queru seguia uma escriturária do Fórum da João Mendes que desconfiavam que fazia “sumir” processos para um advogado bonitão da Avenida Paulista. A meliante parou no Center 3 para passar o pacote para o seu cupincha, quando Queru constatou que também estavam passeando por ali a Família Neves Gomes, pai, mãe e a mais filha nova, adotada e de nome Edith, cinco anos. Iam ao cinema.

Já com a intenção de trocar um presente fajuto ganho no amigo secreto da firma, a Família Silva Souza, mãe, segundo marido e o novo filho, o Benedito, batiam perna distraidamente pelo Shoppong. Queru sorriu até que começou o incêndio.

Rebuliço.

Alvoroço.

Gritaria.

Os pais se perderam dos filhos.

A sacripoanta correu junto com o comparsa e Queru pegou o pacote e vendo o desespero dos familiares, saiu em buscas dos pequenos.

Depois de dois terços e quatro ave-marias Queru os encontrou, gargalhando, atrás da de uma pilastra. As crianças riam um do outro, pensavam que estavam diante de um espelho. As mães os agarram, correram e nem agradeceram!

Queru ainda ficou um tempo, adora homens de uniformes e como era uma quinta feira, foi jantar em uma churrascaria no Belenzinho com um bombeiro, o Messias, que a ajudou muito no caso da Escada Magirus, outra caso.

Em 1992, também em outra quinta, Queru voltava de Pindamonhangaba, chegando na Praça da Sé, vê que a menina Edith, dez anos, passeando sozinha pela redondeza, não sorria porém tinha os olhos alegres. Dez passos depois, Queru vê Benedito também passeando apreciando o local. Por um tantinho assim ele não se encontravam. Queru, manca de fome, pediu no bar um pão com manteiga sem miolo.

O show do David Bowie em 97, no Palmeiras, Queru fazia a segurança dos instrumentos do Titãs, que fizeram a abertura. Trabalhou bastante, ficou amiga dos músicos. No final foi beber com os técnicos em uma lanchonete da Turiassui. Atenta percebeu que um casal conversava. Chegou perto e constatou que no meio da música “Let’s Dance” a Edith foi tomada por um furor uterino e deu um beijão na amiga Paula, enquanto Benedito, fervor andrógino, deu um chupão e uma patolada no amigo Paulo. Levaram tapas, choraram e sairam mais cedo do show. Tanto Paula como o Paulo, estranharam o comportamento deles. Parecia outra pessoa. Coisa de incorporação, demo ou bipolar, sei lá. Queru, os adolescentes e os técnicos terminaram a noite em uma festa na Rebouças!

Por ser domingo, Queru seguia a amante de um cliente, que sempre alegava ir ver a mãe em Santo André mas ia na Igreja Ortodoxa da Vergueiro. Voltando ficou presa no meio dos festejos : “É Campeão” da vitória do Brasil sobre a Alemanha.

Fascinada pela multidão, testemunhou o Benedito com uma bela mineira, chamada Darcy no Ponto Chic.l Ees dividiram um bauru e um chopp e descobriram que faziam jornalismo na Casper à noite.

Queru deixou o casal sozinho e indo em direção da padaria do Souza, viu que a  Edith estava fascinada por um outro mineiro, Darcy, na Sorveteria Alaska. Dividiram uma banana splite e apuraram que faziam Jornalismo na Casper pela manhã.

Comendo uma carne louca na esquina, Queru teve certeza que antes de racharem a conta, já estavam enamorados todos os quatro.

Queru, em 2007, seguia um médico, Hospital e Maternidade Santa Escolástica, que foi acusado de abusar de suas clientes, quando testemunhou, que na mesma hora, nascia Luci, filha de Benedito e Darcy, e no outro lado do andar, também nascia Luci, filha de Darcy  e Edith. A do Benedito adiantou e a da Edith estáva madura. Nasceram com 2,346kg, saudaveis, com uma pinta na orelha esquerda e sorrisos que aqueceia a imaginação. Depois que viu o médico sair dali algemado, Queru, comprou uma cerveja e foi comemorar mais um caso resolvido.

Tem dia que chove e outros que somente lama tem. Queru, precisando de um adiantamento, cuidava um casal de portugueses, ele com 90 e ela 86. Queru chegava pela manhã, arrumava os velhinhos e passeava com eles pelo Parque da Aclimação. Foi ali que encontrou a Edith passeando com a filha Luci e o Benedito com a graciosa prole. Andavam em sentido contrário e não se viram. Dias depois, enquanto o velhinho passava  a mão na Queru, que sempre cobrava um bonus por isto, Darcy e Darcy se conheceram.  Coisa fulminante. No seguinte perceberam o acaso e se apaixonaram. Fugiram para Cândido Godoi, Rio Grande do Sul, levando as meninas e não deixando nenhum bilhete.

Fim?

Maria Querumbim, Queru a única detetive da Praça da Sé que abre aos domingos, em tempos de vacas magras: compra ouro, faz serviços de despachante, bolos de casamento de encomenda e adestramento de animais, porém nunca deixa, todas as terça à noite das 19 às 21:30hs, joga bocha na Associação Municipal dos Veteranos da Força Publica, mas naquele oito de junho de 2014, preferiu tomar um café com conhaque. Todos meios borrocrocho, pela piaba alemã que levamos. Ela vê, o cabisbaixo Benedito pela praça e do outro lado, olhando para cima, Edith. Queru sabe que algo vai acontecer. Coração acelera. Que foi? Outro assalto na lotérica, o quinto desde janeiro. Resistência dos empregados, gritos e disparos. Por instinto, Edith e Benedito dão as mãos e correm para o meio da praça. Bandidos vão pelo metrô. A polícia e os seguranças chegam.  Cruzam com o casal, pedem que parem, eles se olham, sorriem e continuam andando. Acho que é o início de uma bela amizade.

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