32. O HOMEM QUE DEVE MORRER

 Dingue

Dingue-Lingue quer falar comigo. Grita. A alguazarra da crianças não me deixa ouvir direito. Fala mais alto! O berreiro é música! Dingue vem e tropeça em um moleque, faz um carinho em uma menina e beija outro. Adoro uma folia! Olhe que tudo começou com uma pratada na cabeça e ficar amarrado no pé da mesa. Era pequeno. Chorei até que o Dingue veio falar comigo. Por dentro, xinguava a minha mãe. Dingue veio do fundo e falou que não prestava o que estava fazendo. Mãe é sagrado. O menorzinho puxa o cabelo da ruivinha, Dingue dá um coque nele e fez ele pedir desculpas. Amo muito! Depois Dingue me ensinou a ser mais ladino: ficar sempre de mutuca com os mais velhos, roubar manga e bater naqueles que me chamassem de debão. Dingue fez a gurizada da minha vila me respeitar! Bastou uma uma mordida no pau de um pilantra e ninguém mexeu mais comigo. Cresci e Dingue não. Ele fez eu aprender a engraxar sapatos, consertar fechadura, caiar parede e gostar de criancinhas. “Vai Carlos, vai ser gauche na vida!” caimos nas estradas. Na primeira vila, me encantei com o Alfredo que empinava um pipa linda. Cheguei, pedi para emborcar e o menino formoso deixou. Fiz chegar mais perto e tasquei um beijão. Gritou e fugiu. Peguei e fiz ele! O moleque gritou feito um capado. Dingue ficou bravo e mandou esganar e obedeci chorando. Alfredo foi brincar de fubeca com Dingue, dentro de mim. Veio em seguida a Wanslívia e o Boaventura que entraram depois que cortei a garganta deles e sem lamentar e até feliz! Com a Veneza foi num longo abraço e com o Hidráulico, na lambida. Olinda no tapa e o Oceano na peixeira. A Céu Azul nem gemeu e com o Universo foi no sorriso. Muitos e muitas. Bananéia fugiu também, gritou e quando estava já brincado de boneca, a polícia apareceu. Apanhei de rabo de tatu. Salgaram e bateram de novo. Num liguei. Esqueço da vida vendo minhas crianças e o meu Dingue. Fala logo! Tá me mandando comer vidro moído com veneno de rato: Assim vou poder beijar a minha gurizada.

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